The Mandalorian (Fonte: Reprodução)
The Mandalorian (Fonte: Reprodução)

Nós só fomos presenteados com dois episódios até agora. Mas The Mandalorian já se parece mais autêntico como um produto Star Wars do que qualquer coisa feita após O Retorno de Jedi.

Star Wars pós trilogia original

Após o sucesso da trilogia original, mesmo que esta tenha se fechado muito bem, muitos fãs queriam mais de Star Wars. Enquanto existe todo um universo expandido nas mais diversas mídias, aqueles que queriam ver algo mais no cinema, tiveram que se contentar com os dois Caravana da Coragem e um especial de Natal do Chewie.

As produções se concentravam em uma visão muito micro do universo. Mesmo que o mesmo possa ser dito sobre a trilogia original, que se concentrava na Jornada do Herói, proposta por Joseph Campbell, de Luke Skywalker, o pano de fundo dava uma visão macro da Resistência contra Império, construindo um universo muito maior do que pequenas inserções guiadas por Ewoks e Wookies.

As prequels

Então, retornamos à família Skywalker com o péssimo Ameaça Fantasma e suas duas contestáveis sequências. Enquanto os fãs estavam ávidos pelas prequels, elas fizeram questão de contradizer tudo o que Obi-Wan sobre o passado (e que, até então, era o cânone) e fez o primeiro mentor de Luke Skywalker parecer um mentiroso ou alucinado.

Além disso, muita gente não se recuperou de ver Yoda lutando. Afinal, ele é o arquétipo do velho ancião, e seu uso da Força (assim com os dos demais Jedi) deveria ser mais do que a arte do espadachim.

O pouco tempo de hiato entre o episódio 3 e 4 também não ajudou muito na construção de um universo sólido. Resumidamente, além de ir contra aspectos da trilogia original, as prequels mais levantaram questões sobre a história da franquia do que responderam.

Claro que muito se derivou daqui, como animações aclamadas e, o ponto forte de Star Wars, licenças para os mais diversos produtos, desde brinquedos até roupas de cama. O que não fazem dos filmes um produto brilhante para a saga cinematográfica.

As sequels

Muito tempo depois, chegou a vez da Disney explorar a franquia após a aquisição da Lucasfilm. Procurando renovar a franquia e apresentá-la para um novo público, o trabalho feito em O Despertar da Força era quase que inevitável. Muitos podem questionar o caminho tomado para fazer isso. E devem. Ainda assim, ela não chega a contradizer o que vimos no original, o que já é um ponto notável e o mínimo de se esperar.

Mas a chegada de Os Últimos Jedi reascendeu a discussão. Enquanto o primeiro filme serviu para colocar as peças no tabuleiro, o segundo filme mostrou a cara dessa trilogia, tornando-se um divisor de águas entre os fãs. Contudo, algo que é inegável é: o longa explorou o macro e trouxe novidades para o universo, sem desrespeitar os filmes anteriores. Eles permanecem lá, intocáveis, caso o espectador queira desconsiderar o que viu aqui.

Ainda assim, uma perspectiva maior e, consequentemente, um veredito sobre a trilogia só poderá se dar após A Ascensão de Skywalker. Por isso, há de se esperar para falar mais sobre isso. Ainda que Rey tenha sido introduzida como protagonista (e considerando que não haverá um plot twist onde descobrimos que ela é uma Skywalker, mesmo que isso pareça ser o caso para boa parte do público), essa trilogia, assim com a original e a prequel se concentrou no núcleo familiar titular da franquia. E, até agora, pareceu mais do mesmo.

Os spin-offs

Rogue One começou bem os filmes spin-offs arquitetados pela Lucasfilm da Disney. Enquanto a família Skywalker e a disputa entre a Resistência e o Império estivessem totalmente no plano de fundo, o longa-metragem trouxe novas e interessantes personagens que, mais importante, se mostraram originais e autênticas. Certamente um acerto.

Contudo, poderia se argumentar que essa história não é novidade. E isso é verdade. O primeiro filme da franquia resumia tudo isso antes mesmo de uma personagem (ou mesmo uma nave!) aparecer na tela. O que não impediu o filme de ser relevante, tornando a primeira vitória dos Rebeldes ainda mais importante no coração dos fãs, e trazer novos paradigmas para a franquia, como o sensitivo da Força Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e o rebelde rebelde-demais Saw Gerrera (Forest Whitaker).

Mas então, Han Solo veio para colocar todos os planos na lixeira mais perto de Kathleen Kennedy. O filme desagradou os fãs e parece ter lembrado aos responsáveis o porque prequels não funcionavam nessa franquia. Se o próprio George Lucas não conseguiu agradar os fãs que querias respostas, seria difícil outra pessoa conseguir. Algumas perguntas não precisam ser respondidas, pessoal. Vamos apenas acreditar nas palavras do Obi Wan de Alec Guinness e deixar que as do Han Solo de Harrison Ford continuem uma incógnita.

The Mandalorian

Felizmente, o planejado spin-off de Boba Fett foi substituído por The Mandalorian, um Spaghetti Western situado em uma galáxia muito, muito distante. Sem um sopro de exposição, quase nenhum diálogo ou detalhe, o programa de alguma forma recriou o tom do clássico Guerra nas Estrelas, sem um único sabre de luz ou personagem conhecida.

O show não é perfeito; um protagonista mascarado (cujo capacete desajeitado parece inadequado para navegar por um corredor apertado, sem falar em um tiroteio) não é fácil de simpatizar. Mas mesmo esse detalhe é autêntico para um universo em que os projetistas de armaduras priorizam a forma sobre a função.

A série é um pouco mais sombria do que estamos acostumados. Mas inegavelmente fantástica, repleta de criaturas peculiares, tiroteios que terminam em desintegrações e ambientes aparentemente inóspitos sendo habitados.

A personagem de Pedro Pascal não está salvando a galáxia; está apenas tentando sobreviver após o colapso do Império, prosperando no submundo criminoso desagradável, vivendo essencialmente as fantasias evocadas pela icônica cena da cantina de Mos Eisley. Agora, temos um novo pistoleiro com um coração de ouro oculto, e ele está brilhando no lado arenoso e desprezível da galáxia.

As trevas sempre fizeram parte de Star Wars. A trilogia original descreve os Jedi como os únicos cavaleiros honoráveis em um universo cruel e corrupto, repleto de escravidão e exploração. Os filmes da Disney se afastam da galáxia sem lei com naves em ruínas, contrabando e escaramuças, ignorando as implicações mais desagradáveis da criação de George Lucas. O máximo que tivemos disso é a rápida introdução de Rey e a cena do cassino, que tenta, mas não consegue, colocar um pouco de cinza no maniqueísmo da franquia.

Star Wars precisava evoluir, sem perder de vista sua identidade, e The Mandalorian nos dá um mundo cheio de surpresas ao mesmo tempo em que se parece extremamente familiar. Salvar a galáxia deve ser uma ocorrência menos comum nesta franquia, e a televisão oferece uma oportunidade de contar histórias nesse micro, explorando os cantos e recantos desse universo imaginativo e extenso, muito além da lareira de Natal de Chewbacca.