O século XXI trouxe muitas novidades para nós, fãs de séries. Mas nós não entramos de graça nesse século. Mesmo com as nossas marcações de tempo, muitos historiadores vão te dar uma data mais pertinente para o começo do século XXI que não a segunda-feira que foi o dia 1º de janeiro de 2001. De fato, esse século começou em 11 de setembro de 2001, quando o mundo parou para assistir a transmissão em tempo real do atentado terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center de Nova York.

Ao final do século passado, a TV estadunidense não tinha o glamour que havia tido antes. Uma recente prova disso pode ser o filme Era Uma Vez em… Hollywood, de Quentin Tarantino, que mostra os bastidores da série Lancer. Avançando alguns anos desde 2001, as séries estão novamente tornando-se um sinônimo de qualidade. Com o cinema dominado por blockbusters para adolescentes e jovens adultos, estrelas de outrora do cinema estão buscando roteiros e papéis mais interessantes aonde eles estão: nas séries.

O cinema pós-11/9/2001

Certamente, essa inversão tem tantos motivos quantos seriam necessários para se fazer uma mudança. A chegada de filmes como X-Men e Homem-Aranha no começo dos anos 2000 contribuiu imensamente para o sucesso dos filmes de super-heróis. E sua mudança criativa, que permitiu aos jovens adultos aproveitá-los tanto quanto o público infantil, é um exemplo de como eles conseguiram conquistar o público.

No entanto, trazer essas figuras que representam, ao olhar mais raso, uma sensação de segurança não tiveram seu boom de popularidade mundial depois do atentado de 11 de setembro por coincidência. Antes de Os Vingadores chegarem em 2011, os quatro heróis apresentados em filmes solos para a formação da equipe eram Thor, Hulk, Capitão América e Homem de Ferro. Das quatro personagens, aqueles que são considerados detentores dos melhores filmes individuais pré-Os Vingadores são justamente Capitão América e Homem de Ferro.

Os super-heróis

Enquanto seria desnecessário e redundante explicar a conexão do Capitão América com o exército estadunidense e, consequentemente, com a sensação de segurança que ele representa, vale lembrar que o primeiro filme do Homem de Ferro mostra um ataque ao bilionário estadunidense por um grupo de “árabes” (vale exaltar a generalização constante de diversas culturas em uma só). Ali nasce um novo Tony Stark. E não estamos do Homem de Ferro. Estamos falando de um bilionário da indústria armamentista que descobre que suas armas estão sendo usadas pelo inimigo (novamente, os “árabes”). Somente assim que Stark resolve interromper o negócio de sua família. E nem precisamos dizer que Os Vingadores mostra uma equipe de super-humanos salvando Nova York de uma invasão e, por mais que vejamos eles lutando por toda Manhattan, tudo tem seu epicentro a partir de um dos mais altos prédios da ilha.

As maiores bilheterias de todos os tempos

Vale ressaltar que, das 10 maiores bilheterias do cinema na atualidade, apenas uma é do século XX. Estamos falando de Titanic. Não por coincidência, Titanic também o único representante de uma obra não fantasiosa (Velozes e Furiosos 7, o 9º colocado, não pode ser chamado de 100% pé no chão), com um enredo baseado em fatos e com personagens palpáveis para o público que não está procurando o puro entretenimento.

Até Vingadores: Ultimato ultrapassá-lo, Avatar era a maior bilheteria de todos os tempos. Avatar conta a história de uma invasão militar com a missão de colonizar um determinado espaço geográfico e, assim, se apropriar de uma matéria-prima existente no local. Bastante parecido com as incursões militares dos EUA no Oriente Médio, mais precisamente Iraque (mas não só) pós-atentado terrorista de 2001.

A escassez de obras não-fantásticas

Essa gigante onda de fantasia fez com que grandes nomes do cinema do século passado fossem buscar um local onde pudessem explorar obras que estavam em decadência no cinema. O cineasta Breno Silveira, que possui longa-metragens como Eu, Tu, Eles, Dois Filhos de Francisco e Entre Irmãs na carreira, foi a um encontro de jornalistas na Fox, em 2018, onde comentou um pouco do porque sua incursão cada vez maior na TV.

Silveira estava lá para falar sobre 1 Contra Todos, sua série protagonizada por Júlio Andrade, e citou justamente esses blockbuster de super-heróis para dizer que a sua dominação quase que total do mercado acabou alavancado a ida do público jovem, que é de fato o mais consumidor, ao cinema. Em contra-partida, perdeu-se a oportunidade de alcançar uma boa distribuição com obras menos focadas nas crianças, adolescentes e jovens adultos.

Essa é a razão pela qual hoje vemos um maior investimento na televisão. Na busca de papéis que lhes proporcionassem uma realização pessoal e/ou profissional, astros e estrelas de Hollywood foram buscar nas telinhas o que não estavam alcançando nas telonas. Filmes fora da lógica atual acabam por ter menos alcance e menos poder competitivo.

A oportunidade na TV

Grande estúdios, como a Netflix, a Amazon ou HBO foram atrás desses nomes lhe oferecendo não só dinheiro, mas algo mais interessante do que eles estavam vendo no cinema. A Prime Video tem Julia Roberts, vencedora do Oscar em 2001, a última edição pré-11 de setembro, como protagonista da série Homecoming, por exemplo.

A HBO trouxe nomes como Ed Harris e Anthony Hopkins para Westworld e Laura Dern, Reese Whiterspoon, Nicole Kidman e Meryl Streep para Big Little Lies. A Netflix inclusive está trazendo as duas últimas para trabalhar com Ryan Murphy, criador de shows como American Crime Story, que relata casos de crimes históricos.

O resultado do 11 de setembro foi um acolhimento maior do público de obras fantásticas. Quando estas não mostram a realidade (talvez insuportável) por um viés fantasioso, elas agem como um conforto de segurança. É por isso que um filme como Vingadores: Guerra Infinita é tão celebrado por quebrar a sua expectativa e é por isso que filmes mais alegres desses super-heróis são mais popularmente celebrados do que filmes mais sombrios.

O cinema conseguiu enxergar uma oportunidade de trabalhar como entretenimento escapista e trazer um ótimo retorno financeiro. A TV aproveitou a oportunidade para trazer seus grandes nomes para as séries, o que resultou na descoberta de um outro mercado que, graças também à chegada dos serviços de streaming, trouxe para a telinha o status que, no fim do século passado, estava no cinema.