Primeiramente, vale lembrar que essa crítica se absterá de grandes spoilers da segunda temporada da série (alguns pequenos serão necessários). Porém, apresentará spoilers da primeira temporada de Big Little Lies.

Uma das minisséries mais aclamadas dos últimos anos, Big Little Lies chegou em sua segunda temporada com um grande desafio. Continuar uma história que já havia apresentado um ótimo desfecho. E que já poderia muito bem ter (com maestria) terminado.

Após a morte de Perry, as mulheres presentes no momento do assassinato passam a ser conhecidas como “as cinco de Monterey”. Celeste (Nicole Kidman), Jane (Shailene Woodley), Madeline (Reese Witherspoon), Renata (Laura Dern) e Bonnie (Zoe Kravitz) tem de lidar com as consequências do acobertamento desse assassinato e com Mary Louise Wright (Meryl Streep), mãe de Perry que chega a Monterey buscando entender melhor os eventos que levaram seu filho à morte.

Sobretudo com uma direção virtuosa de Andrea Arnold (Fish Tank, American Honey), o roteiro de David E. Kelley baseado no romance de Liane Moriarty consegue dar uma grande densidade às seis personagens principais supracitadas. Principalmente por conseguir apresentar complexas tramas paralelas sem nunca tomar o espaço da trama central.

Da mesma forma com que as cinco de Monterey têm de lidar com os desdobramentos do assassinato de Perry, vemos outros vários temas sendo abordados ao longo da segunda temporada de Big Little Lies. Celeste tentando superar o luto e manter a guarda dos filhos. Jane se abrindo para um novo relacionamento após o estupro que sofreu. Madeline tentando salvar seu casamento. Renata lidando com sua falência. E por último, Bonnie lidando com o fato de ter cometido um assassinato e com a difícil relação com sua mãe.

De fato, seria chover no molhado ressaltar as grandes atuações das seis protagonistas. É um tanto arrebatador o quanto a trama é capaz de balancear o peso dado a cada narrativa individualmente e, também, mesclá-las a esse segredo que parece estar a cada momento mais perto de ser descoberto. E ainda mais arrebatador o quanto Kidman, Woodley, Witherspoon, Dern, Kravitz e Streep conseguem entregar a intensidade necessária para as respectivas tramas de suas personagens.

Nesse meio tempo, e com tantos temas, Big Little Lies consegue grandes feitos. Consegue abordar temas tanto atuais quanto universais. Acima de tudo, é capaz de abordar esses temas sem se tornar enfadonha. Mantendo um mistério pairando sobre a trama central. Mesclando gêneros que vão do romance até dramas de tribunal. Nesse sentido, sendo capaz de utilizar o tempo da trama para perscrutar as mais diferentes e intrincadas emoções.

Por último, visto que esse texto não estaria completo sem uma leve crítica àquela série dos dragões e zumbis de gelo, vamos lá: É realmente impressionante a diferença que uma diretora do peso de Arnold traz a essa trama. Seu valor aos gritos e sussurros, sua atenção aos detalhes. Isso sim é boa direção. Muito mais sensível e muito mais complexo do que orquestrar milhares de bonecos feitos por computador. Big Little Lies é mais uma das tantas provas que a HBO é muito maior que Game of Thrones. E não só pela série criada por David E. Kelley ter melhores atuações e um roteiro mais coerente…

Por fim, Big Little Lies consegue em sua segunda temporada um difícil feito. Aprofundar-se em uma trama que já poderia ter tido um fim, e mais uma vez apresentar um possível final nessa segunda temporada. Um final que pode ser continuado ou não. Mas que pelo visto será.