Maisie Williams como Arya Stark, Isaac Hempstead-Wright como Bran Stark e Sophie Truner como Sansa Stark em Game of Thrones (Fonte: Reprodução)
Maisie Williams como Arya Stark, Isaac Hempstead-Wright como Bran Stark e Sophie Truner como Sansa Stark em Game of Thrones (Fonte: Reprodução)

A 8ª temporada de Game of Thrones trouxe o desfecho de uma das séries mais populares de todos os tempos. Gostando ou não gostando do final, há argumentos de ambos os lados para falar sobre a coerência de suas tramas. De fato existem alguns pontos fracos durante a temporada. Contudo, não deveriam atrapalhar o todo.

Se há o que se reclamar no seriado como obra completa, a maioria das reclamações devem ficar em temporadas passadas. Dentro do que foi proposto a partir do final da sétima temporada, Game of Thrones fez, em boa parte, o melhor que pode. Em relação a produção, pouco há o que se falar. Mas mesmo assim ela não escapa de algumas críticas.

Quando olhamos para a série, precisamos entender que ela é quase que pioneira em termos de orçamento para a televisão. Dito isso, o que foi feito é incrível. Talvez fique complicado não compará-la com grandes produções de Hollywood. No entanto, isto é o que ela não é, e tais comparações não fariam jus ao bom senso. Suas duas batalhas épicas que exigiram de um investimento enorme para acontecer. O uso desse investimento não parece ser errôneo, embora exista outra visão. Mas é notável que coisas que mereceriam mais atenção, como Fantasma, por exemplo, não a tiveram. Um problema que também é melhor associado aos outros anos da série.

A fotografia talvez seja o que mais deve ser exaltado. Com precisão, o enquadramento e a iluminação formaram exatamente o que deveriam. Muito se ouviu falar sobre a escura Batalha de Winterfell. Entretanto, a lógica aplicada de mostrar um duelo entre a luz e a escuridão, ou verão e inverno, vivos e mortos, é de toda eficaz. A falta de compreensão do que está acontecendo é somente uma imersão para o telespectador se sentir no meio do que está acontecendo.

Ao enfrentar um inimigo nunca visto antes, que não atua na lógica aplicada dos Lordes de Westeros, não existia preparação eficaz o suficiente para lidar com o inimigo. Essa confusão foi tão bem representada quanto o avanço das sombras. A imagem de Jorah Mormont liderando a cavalaria Dothraki contra o desconhecido é um dos mais belos quadros da televisão, e assim deverá permanecer por muito tempo. Mérito provável da direção de Miguel Sapochnik.

O diretor atingiu o mesmo objetivo com o penúltimo episódio da trama. Tenha gostado ou não da decisão final de Daenerys Targaryen ao atacar Porto Real, o resultado de gerar ao público uma sensação de repúdio ao genocídio cometido pela Mãe dos Dragões foi completamente eficaz. Assim como quase todas as tomadas dessa temporada. Principalmente em seu season finale, quando Tyrion encontra os corpos de seus irmãos e depois quando vemos Daenerys indo de encontro ao seu exército, com Drogon levantando voo, e suas asas casarem plasticamente nas costas da mãe. Principalmente a última, deve ecoar pela memória do show como a grande ascensão de Dany ao legado de sua família.

Quanto a direção dos atores, não poderia ser mais acertada. Mesmo atuações que anteriormente não eram convincentes, como a de Sophie Turner, parecem ter chego em um nível exemplar. Talvez o menos notável dentre as protagonistas seja Kit Harington. Embora seja compreensível quem argumente que Isaac Hempsstead-Wright possa facilmente ocupar essa posição, sua personagem era de um todo mais complicada. Dentre os mais destacáveis, Maisie Williams figura não como uma surpresa, mas como um improbabilidade agradável. Com menos que carreira que os próximos a serem citados, não ficou devendo nada ao público.

Vale destacar também Emilia Clarke. Talvez não saber desde sempre qual o seu destino possa ter atrapalhado a performance da atriz. Mas isso jamais deve cair em cima de Clarke. O público poderia se sentir mais confortável com o seu final se a sedução do poder fosse um tanto mais gradativa conforme ele fosse tomando suas ações. Infelizmente isso acabou ficando na conta do roteiro. Mas não era necessário mudar o roteiro para vermos a tirania de Dany. Havia maneiras melhores de se construir a personagem. No entanto, esse argumento pouco é válido quando não incoerência em suas ações.

Desde o início provavelmente, com algumas cenas de alta performance de outros aparecendo em algum momento, são os três irmãos Lannister que carregam a atuação da série. Claro que Mark Addy ou Michelle Farley são nomes a se registrarem nas grandes atuações da série. Mas Lena Headey, Peter Dinklage e Nikolaj Coster-Waldau parecem nunca parar de crescer dentro de suas personagens. Não seria ousar demais dizer que, se houve alguma cena fora de tom na atuação do trio, a culpa pode ser dada ao roteiro. Embora, este tenha sido generoso com os artistas desde o início.

Decerto, o roteiro foi a parte mais criticada da última temporada. E não é mentira que existem partes desnecessárias na trama. A mais alarmante é a morte de Euron Greyjoy. Enquanto o pirata poderia ter morrido como tantos outros na destruição da Frota de Ferro, ele reaparece para somente travar um duelo inútil com Jaime Lannister, que não tem repercussões em momento nenhum. Mas a questão de tempo desperdiçado tem de ser analisada bem friamente nesse ano do seriado.

Enquanto os dois primeiros episódios retornaram para as raízes de Game of Thrones, dando tempo para as personagens interagirem entre si e discutirem a política de Westeros. Enquanto o episódio 3, 5 e 6 usaram bem seu tempo de duração, o mais problemático fica, então, pelo de número 4. Apressado, o episódio é a maior prova de falta de ritmo da série. Dadas as circunstâncias, pode se entender ou que este é o pior episódio da temporada. No entanto, é possível dizer que os dois primeiros deveriam ser mais dinâmicos, também. É tão aceitável pensar ou uma ou outra, e talvez ainda ambas as alternativas. Contudo, aceitando o ritmo impresso, ele não é feito de maneira ruim. Mas a situação cria uma inconsistência inegável e difícil de se justificar.

Se para boa parte do público não houve coerência nas atitudes tomadas pelas personagens no fim da trama, há de se colocar que nenhuma é totalmente incoerente com seu final. Game of Thrones propõe que expectativas não serão atingidas, ou ao menos precisamente, desde o seu início. Portanto, vermos Jon Snow condenado a juramentar uma nova vida para a Patrulha da Noite como punição por ter matado Dany é um bom arco trabalho dentro desse universo. Havia expectativa de que ser um bastardo era uma mentira para Jon, que temporariamente assume um manto Stark e chega a flertar com sua origem Targaryen. Todavia, de nada isso é importante quando o rapaz é sentenciado a se livrar de seus nomes.

Ainda há de se falar que o final de Jon é, como nas palavras de Harington, decepcionante. Sua sentença só faz sentido de fato se Verme Cinzento ficasse em Westeros. Ao partir pra Essos, e ao termos a Muralha no território do novo reino independente do Norte, a personagem poderia, sem problemas, ir morar em Winterfell, mesmo que escondido. Um auto-exílio, terminando na mesma caminhada para o além da Muralha, seria mais coerente dentro da trama.

O arco de Bran também é um pouco confuso. No entanto, aceitável. Em todas as outras personagens, a jornada funciona muito bem. É interessante ver personagens como Davos Seaworth, Samwell Tarly ou Brienne de Tarth recompensados no final, da mesma forma que é com Bronn. Mas, mesmo que com algumas mudanças pontuais, que fazem uma bela diferença, o melhor do final da série foi ter voltado em uma espécie de marco 0. A conversa entre o Pequeno Conselho de Rei Bran, o Quebrado, é a grande ilustradora disso.

No geral, a 8ª e última temporada de Game of Thrones é muito boa. Decerto, um marco na televisão que deve ser comemorado e referenciado por anos. Porém, o ano recolhe algos pecados cometidos anteriormente. Talvez a maior lição da série para um consumidor seja a proposta por Tyrion. O que une as pessoas é a história. termine ela bem ou mal, da maneira mais agradável ou não.