Jeremy Irons como Adrian Veidt, o Ozymandias, em Watchmen (Fonte: Reprodução)
Jeremy Irons como Adrian Veidt, o Ozymandias, em Watchmen (Fonte: Reprodução)

Em uma série cheia de mistérios, de quem matou Judd Crawford até o que é a chuva de lulas, nada chamou tanto a atenção dos espectadores de Watchmen desde o seu início como a questão de onde exatamente Adrian Veidt (Jeremy Irons) está e, mais importante, por quê. Enquanto o quinto episódio identificou sua prisão sobrenatural como Europa, uma das luas de Saturno, detalhes como quem o condenou foram eclipsados por revelações como a verdadeira identidade de Will Reeves (Louis Gosset Jr.) e, a mais chocante, que o marido de Angela Abar (Regina King) é na verdade o Dr. Manhattan na série da HBO.

No entanto, com o episódio desta semana, o descaradamente intitulado A God Walk into Abar, descobrimos, assim como Veidt, que o céu de um homem é o inferno de outro. O episódio é construído para mostrar (de forma tão mais esclarecedora que a a própria graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons) como Manhattan experimenta o tempo (passado, presente e futuro simultaneamente) e muda entre 2009 em Saigon, 1985 em Europa, 1938 na Inglaterra, 2009 na Antártica, 2009 em Nova York e, finalmente, para a atualidade em Tulsa. Vemos o primeiro encontro de Manhattan com Angela, em um bar de Saigon no dia de comemoração da vitória sobre o Vietnã, quando muitas pessoas se pintam de azul e descobrimos como o onipotente ser assumiu a forma do falecido Calvin Abar (Yahya Abdul- Mateen II).

A prisão de Veidt

Enquanto essas cenas dão para Watchmen a base de uma história de amor, elas também retratam a gênese da “prisão” de Veidt em Europa, construída por Dr. Manhattan como um Jardim do Éden, e dando para Phillips (Tom Mison) e Crookshanks (Sara Vickers) uma origem como os novos Adão e Eva. O deus azul os moldou à imagem do gentil casal que o acolheu, junto com seu pai e outros refugiados europeus em 1938, e moldou o paraíso a partir de sua propriedade rural. Dr. Manhattan deixou a Terra em 1985. Mas não para Marte. Suas imagens eram uma farsa. Ao invés disso, ele foi até Europa, viver como um criador. No entanto, quando voltou à Terra e encontrou o amor, seus Adão e Eva não tinham ninguém para idolatrar. Aqui entra Ozymandias.

Mais de duas décadas depois que ele salvou o planeta da destruição nuclear, teletransportando uma gigante “lula alienígena” para o meio de Nova York, Veidt se isola em seu retiro antártico, Karnak, orquestrando “chuvas de lula” periódicas para manter a paz mundial, e lamentando que a população não está ciente do que ele fez. Claro, ele causou a morte de 3 milhões de pessoas. Mas garantiu a sobrevivência da Terra. No entanto, quase ninguém sabe. Ele colocou esse plano em movimento para garantir uma utopia. Mas ele começa a duvidar que um dia a verá.

A troca

Ao visitar Veidt pela primeira vez em 24 anos, Dr. Manhattan descobre que cada um tem algo que o outro quer: Veidt tem um dispositivo (que Angela terrivelmente removeu do crânio de Cal no sétimo episódio) que lhe provocaria um curto-circuito na memória, permitindo-lhe esquecer quem ele é e o que pode fazer. Assim, poderia viver efetivamente como humano. Em troca, Dr. Manhattan tem a utopia artesanal que Veidt almeja, povoada por “seres projetados para cuidar dos outros ao invés de si mesmos”. Tudo o que Adão e Eva desejam é agradá-lo e adorá-lo, o que Manhattan acha insatisfatório. Mas é exatamente isso que Veidt quer (ao menos, naquele momento).

A revelação que Veidt pediu para ser transportado para esse “paraíso” (ao invés de ser sentenciado ao local como algum tipo de punição) muda completamente a maneira como vemos suas cenas em Europa, e nos fornece uma linha do tempo concreta. Veidt nunca teve a intenção de ser um prisioneiro, embora ele certamente tenha se tornado um; ele era, de fato, um deus substituto. Contudo, no final de seu primeiro ano nessa utopia, como vimos no episódio de estreia, ele já estava entediado com essa existência, que logo o transformou em um deus cruel e benevolente. Então, ele começou a destruir seus adoradores (seus servos clones) primeiro por diversão, depois em tentativas de fuga e, ainda, em ataques de raiva.

A cena pós-créditos

Isso também explica o comportamento de seus servos, que se voltam contra ele em um julgamento absurdo de um ano e, em seguida, na cena pós-créditos deste episódio, o humilham enquanto tentam fazê-lo ficar. Ainda assim, os clones não aparentam estar estar exatamente contra Ozymandias, mas cumprindo as ordens do Guarda Florestal, o Phillips primordial. Ele já perdeu um deus, Dr. Manhattan, e não parece disposto a perder um segundo.

Dessa forma, encontramos Veidt trancado em uma prisão dentro de uma prisão, onde ele é visitado pelo Guarda Florestal, que traz um bolo com sete velas (uma para cada ano de permanência de Veidt em Europa), deixando claro que qualquer admiração ou adoração que ele já sentiu por esse “deus” desapareceu há muito tempo.

“Por que o céu não é suficiente?” ele pergunta a Veidt, que responde: “Este não é o meu lar”, antes de elaborar uma fantasia em que seus “oito milhões de filhos” estão “indubitavelmente de pé nos berços, gritando em desespero” pelo seu retorno. De fato, nenhum céu, seja o da Europa ou o imaginado na Terra, será suficiente para Adrian Veidt. Para ele, nada acaba e nada é suficiente.