A polêmica série dramática de adolescentes da Netflix, 13 Reasons Why vem preocupando muitos (e em sua maioria pais) desde o momento em que chegou ao catálogo do streaming há dois anos. Além dos ingredientes usuais para um drama adolescente bem-sucedido (paixões e jovens incrivelmente atraentes fazendo suas melhores impressões de adolescentes enlouquecidos pela convivência familiar e escolar), o drama tinha algo mais sinistro em sua essência: um mistério suicida.

Mas as ansiedades criadas pelo show são mais complexas do que uma aversão inerente a programas obscuros voltados para os jovens. Para aqueles que não estão familiarizados com a série, a adaptação para TV do romance homônimo de Jay Asher segue o suicídio da protagonista Hannah Baker.

Assim, ela explica seus motivos em uma série de 13 fitas. Dessa forma, acaba por citar o comportamento de alguns de seus colegas em relação a ela como parte de sua decisão de morrer. A partir daí, as personagens lutam contra seu potencial papel em sua morte. Dessa maneira, reforçam a noção de que o suicídio é um meio de se vingar daqueles que o prejudicaram. E esse é apenas um dos problemas do programa.

O que dizem os estudos?

Logo após sua estréia, surgiram relatos de que as pesquisas do Google relacionadas ao suicídio aumentaram em 20%. Em abril de 2017, um mês depois de sua estréia, circulavam 11 milhões de tweets que mencionavam o programa. Então os especialistas em saúde mental começaram a falar sobre o programa. Assim relata o Independent.

Segundo o site, a National Youth Mental Health Foundation relatou “um número crescente de chamadas e e-mails diretamente relacionados ao programa” na Austrália. Nos Estados Unidos, Dan Reidenberg, diretor-executivo da organização sem fins lucrativos de prevenção do suicídio, Suicide Awareness Voices of Education (SAVE), expressou preocupação de que os adolescentes “superidentificassem-se com Hannah”.

“O show, na verdade, não apresenta uma alternativa viável ao suicídio”, disse Reidenberg. “O programa não fala sobre doença mental ou depressão, não cita essas palavras”. Agora, dois anos depois, junto com a 3ª temporada, as preocupações ressurgiram.

No final de abril desse ano, um estudo sugeriu forte ligação entre o programa e um aumento de suicídios adolescentes. De acordo com uma pesquisa do Nationwide Children ‘s Hospital, as taxas de suicídio entre jovens de 10 a 17 anos nos EUA aumentaram 28,9% ao mês após a estréia do programa. A taxa de suicídio no mês de estreia foi a mais alta em 19 anos. Embora o número de meninas afetadas não tenha mudado.

São diversas as estatísticas que sugerem o aumento e sua conexão ao programa. Contudo, existem ainda as que não são a favor do estudo. Algumas das associações entre as taxas de suicídio e o momento da liberação do programa podem parecer intimamente conectadas. Mas não há como provar que esse é realmente o caso. O que temos aqui pode ser classificado como uma coincidência potencial que serve para reforçar medos inteiramente justificáveis.

Respostas da Netflix

A Netflix respondeu ao estudo lançado nesse ano destacando outras pesquisas. Estas diziam que 13 Reasons Why “parecia ter um efeito benéfico sobre os alunos que viram a segunda temporada completa”. Além disso, sugere que os espectadores que assistiram toda a segunda temporada “eram mais propensos a manifestar interesse em ajudar uma pessoa suicida, especialmente em comparação com aqueles que pararam de assistir”. Mesmo esse estudo, no entanto, revelou alguns efeitos prejudiciais. Incluindo que os espectadores que pararam de assistir a segunda temporada antes do final relataram maior risco de suicídio futuro.

Certamente, o retorno do hit da Netflix volta a preocupar. Vale lembrar que o próprio streaming foi forçado a incluir avisos adicionais em resposta a esses medos generalizados. E os criadores do programa tiveram que explicá-los em várias ocasiões. Ao ponto que, no meio do mês passado, a empresa finalmente retirou do ar uma impactante cena de suicídio explicito da primeira temporada.

13 Reasons Why tem culpa?

Mas quando caímos na armadilha de nos cegar em estatísticas com base no nosso desejo de encaixar as peças do quebra-cabeça do impacto desse programa na saúde mental da adolescência, corremos o risco de nos distrair dessas preocupações válidas. O show, baseado apenas em sua premissa, é profundamente defeituoso. Não porque não haja lugar em nossas telas para explorar as complexidades que cercam o suicídio e a saúde mental. Mas porque a abordagem do programa não foi suficiente para fazer isso em primeiro lugar.

Indiscutivelmente, 13 Reasons Why romantiza o suicídio. No final da primeira temporada, representou graficamente a morte de Hannah e simplificou a miríade de fatores que a levaram a isso em primeiro lugar. Esse continua sendo o caso, independentemente do que as estatísticas possam sugerir.

Em última análise, é bom que exames minuciosos sobre o caso produzam uma resposta potente às formas como o entretenimento trata o suicídio. Por exemplo, isso levou a Netflix ao lançamento do site 13reasonswhy.info, completo com recursos e tópicos de discussão diretamente relacionados ao programa após a reação adversa.

Decerto, não há muito sentido em permitir que pesquisas, capazes de falhar, influenciem em como respondemos a um programa. Mesmo que isso se encaixe em nossas opiniões pessoais.